Showing posts with label Vida. Show all posts
Showing posts with label Vida. Show all posts

16.5.12

LOBATO, Monteiro. Memórias da Emília

A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre.
– E depois que morre? – perguntou o Visconde.
– Depois que morre vira hipótese. É ou não é?
O Visconde teve de concordar que era. 
LOBATO, Monteiro. Memórias da Emília

Bem sei que tudo na vida não passa de mentiras, e sei também que é nas memórias que os homens mentem mais. Quem escreve memórias arruma as coisas de jeito que o leitor fique fazendo uma alta ideia do escrevedor. Mas para isso ele não pode dizer a verdade, porque senão o leitor fica vendo que era um homem igual aos outros. Logo, tem de mentir com muita manha, para dar ideia de que esta falando a verdade pura. 

21.3.12

WOOLF, Virginia. O quarto de Jacob

Quer o censuremos ou elogiemos, não há como negar o cavalo selvagem que trazemos dentro de nós. Ele galopa desenfreado; cai na areia, exausto; sente a terra girar; tem – sem dúvida – um impulso de afeto para co pedras e relvas, como se a humanidade tivesse acabado; e quanto aos homens e mulheres, vamos esquecê-los – não podemos ignorar o fato de que tal desejo muitas vezes nos domina.
WOOLF, Virginia. O quarto de Jacob

Tão freqüentes quanto as esquinas de Holborn são esses hiatos na continuidade dos nossos caminhos. Ainda assim, seguimos em frente.
WOOLF, Virginia. O quarto de Jacob

Parece, portanto, que homens e mulheres falham igualmente. Parece que não conhecemos em absoluto uma opinião profunda, imparcial e absolutamente justa sobre nossos próximos. Ou somos homens, ou somos mulheres. Ou somos frios, ou somos sentimentais. Ou somos jovens, ou estamos envelhecendo. Em qualquer caso, a vida não senão uma procissão de sombras, e sabe Deus por que as abraçamos tão avidamente e as vemos partir com tal angústia, já que não passam de sombras. E por que, se isso e muito mais é verdade, por que ainda assim nos surpreendemos no canto da janela com a inesperada visão de que o rapaz na cadeira é, entre todas as coisas do mundo, a mais sólida, a mais real, a que melhor conhecemos – sim, por que? – Pois, no momento seguinte, já nada sabemos sobre ele.

7.2.12

SARAMAGO, José. Claraboia

Aprendi a ver mais longe que a sola destes sapatos, aprendi que, por detrás desta vida desgraçado que os homens levam, há um grande ideal, uma grande esperança. Aprendi que a vida de cada um de nós deve ser orientada por essa esperança e por esse ideal. E que se há gente que não sente assim, é porque morreu antes de nascer.
SARAMAGO, José. Claraboia

Quantos levam a vida sem descobrir que são inúteis? No meu entender, só pode ser verdadeiramente útil quem já sentiu que era inútil. Pelo menos, não corre tanto risco de voltar a sê-lo...
SARAMAGO, José. Claraboia

Tenho a sensação de que a vida está por detrás de uma cortina, a rir às gargalhadas dos nossos esforços para conhece-la. Eu quero conhece-la.
SARAMAGO, José. Claraboia

Não gosto de ser agarrado e a vida é um polvo de muitos tentáculos. Um só basta para prender um homem.

11.1.12

WOOD, James. Como funciona a ficção

A literatura nos ensina a notar melhor a vida; praticamos isso na vida, o que nos faz, por sua vez, ler melhor o detalhe na literatura, o que, por sua vez, nos faz ler melhor a vida. E assim por diante.
MÁRAI, Sándor. As brasas

Mas tem que ser assim: só podemos compreender o essencial partindo dos detalhes, esta é a experiência que tirei tanto dos livros como da vida. É preciso conhecer todos os detalhes, porque nunca se pode saber qual será importante depois, e que palavras esclarecerão alguma coisa.

23.11.11

BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski

A vida é dialógica por natureza. Viver significa participar do diálogo: interrogar, ouvir, responder, concordar, etc. Nesse diálogo o homem participa inteiro e com toda a vida: com os olhos, os lábios, as mãos, a alma, o espírito, todo o corpo, os atos. Aplica-se totalmente na palavra, e essa palavra entra no tecido dialógico da vida humana, no simpósio universal.
BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski

Ser significa comunicar-se pelo diálogo. Quando termina o diálogo, tudo termina. (...) Duas vozes são o mínimo de vida, o mínimo de existência.

9.11.11

TOLSTOI, Liev. Diário

Eu secava no quarto e, fazendo a volta, aproximei-me do divã e não podia me lembrar se o havia secado ou não. Como estes movimentos são habituais e inconscientes, não me lembrava e sentia que já era impossível fazê-lo. Então, se sequei e me esqueci, isto é, se agi inconscientemente, era exatamente como se não o tivesse feito. Se alguém conscientemente me tivesse visto, poder-se-ia reconstituir o gesto. Mas se ninguém o viu ou se o viu inconscientemente, se toda a vida complexa de muita gente se desenrola inconscientemente, então é como se esta vida não tivesse sido.

13.10.11

LOBATO, Monteiro. O saci

Dentro de cada criatura, bichinho ou plantinha, há uma força que a empurra para a frente. Essa força é a Vida. Empurra e diz no ouvido das criaturinhas o que elas devem fazer. A vida é uma fada invisível.
DUHAMEL, Georges. Remarques sur les Mémoires imaginaires

Les souvenirs que j'ai de ma vie réelle ne sont ni plus colorés ni plus vibrants que ceux de mes vies imaginaires.

20.9.11

REBELO, Marques. A estrela sobe

O céu estava de um azul muito escuro, estrelado. Nunca lhe pareceu tão imenso, tão infinito. Que haveria para além das estrelas? Um arrepio percorreu-lhe o corpo. O coração bateu-lhe com mais intensidade – tinha medo da morte, do fatal aniquilamento, da cova fria. E as estrelas brilhavam. E a Via Láctea era um caminho branco no céu. Pelo branco caminho é que as almas trilhavam. Pelo branco caminho, um dia, sua alma trilharia... O medo voltou. Mas voltou sem sobressaltá-la. Nem era mais medo, mas uma comoção mansa, serena, duma serenidade de canto religioso, de alma que encontra o infinito. Morrer? Sim, morreria. Ficaria dura, muda, fria, imóvel, para sempre fria e imóvel. Os seus pés, as suas mãos, os seus olhos, o seu corpo, um dia, desapareceriam consumidos pela terra inexorável. Um dia, ninguém mais se lembraria dela. Ninguém!... Sentiu qualquer coisa de terrível e injusto – ninguém!... A vida dos homens passa como uma sombra.

15.9.11

AMADO, Jorge. O país do carnaval

- O caso das nossas gerações é o mesmo que o da literatura de antes e de depois da Guerra... Uma literatura de frases: a outra, literatura de idéias.

- Não é assim. Mas, mesmo que fosse, eu ficaria com a literatura de antes da Guerra. Eu, quando leio um artigo, não quero saber se o seu autor tem ou não boas idéias, se é ou não útil. O que eu quero saber é se ele é ou não escritor, se escreve bem ou mal. Mas a verdade é que a literatura anatoliana tinha também idéias. Dava soluções. Mandava que se duvidasse sempre. É ou não uma solução? Colocava a Beleza acima de todas as coisas. Vocês aceitam Deus porque Deus é útil. Nós o negávamos porque achávamos que ele não satisfazia nosso ideal estético.

- Vocês eram terrivelmente egoístas. Ególatras, às vezes.

- E vocês praticam o egoísmo na sua forma mais torpe: o humanitarismo. Nós queríamos a aristocracia do talento, do espírito. Vocês hoje pleiteiam a aristocracia da força. Vocês fazem com que a inteligência abra falência... Só a cultura fica valendo alguma coisa. Porque só a cultura é útil.

- Mas vocês foram fracassados.

- Sim, porque toda vitória na vida é um fracasso na Arte...

- Já passou a época dos paradoxos, Ticiano.

- É verdade. E chegou a das citações...

29.5.11

BARBERY, Muriel. A elegância do ouriço

Nesse ofensa feita ao ritmo sagrado da vida, nessa marcha contrariada, na excelência nascida do constrangimento, teremos um paradigma da Arte.
BARBERY, Muriel. A elegância do ouriço

Fora o amor, a amizade e a beleza da Arte, não vejo muitas outras coisas capazes de alimentar a vida humana.