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19.3.12

CALVINO, Italo. As cidades invisíveis

Tudo isso para que Marco Polo pudesse explicar ou imaginar explicar ou ser imaginado explicando ou finalmente conseguir explicar a si mesmo que aquilo que ele procurava estava diante de si, e, mesmo que se tratasse do passado, era um passado que mudava à medida que ele prosseguia a sua viagem, porque o passado do viajante muda de acordo com o itinerário realizado, não o passado recente ao qual cada dia que passa acrescenta um dia, mas um passado mais remoto. Ao chegara uma nova cidade, o viajante reencontra um passado que não lembrava existir: a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos.

7.2.12

SARAMAGO, José. Claraboia

Nem tudo o que parece, é, nem tudo o que é, o parece ser. Mas entre o ser e o parecer há sempre um ponto de entendimento, como se ser e parecer fossem dois planos inclinados que convergem e se unem. Há um declive, a possibilidade de escorregar nele, e, assim acontecendo, chega-se ao ponto em que, ao mesmo tempo, se contacta com o ser e o parecer.

23.11.11

BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski

Ser significa ser para o outro e, através dele, para si. O homem não tem um território interior soberano, está todo e sempre na fronteira olhando para dentro de si ele olha o outro nos olhos ou com os olhos do outro.
BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski

O próprio ser do homem (tanto interno quanto externo) é convívio mais profundo. Ser significa conviver.
BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski

Ser significa comunicar-se pelo diálogo. Quando termina o diálogo, tudo termina. (...) Duas vozes são o mínimo de vida, o mínimo de existência.

5.7.11

BORGES, Jorge Luis. O fazedor

Eu sei que a Lua ou a palavra lua
É uma expressão que foi criada para
A complexa escritura dessa rara
Coisa que somos, numerosa e una.

20.5.11

SARAMAGO, José. A jangada de pedra

Quantas vezes aconteceu mostrarmo-nos como quem somos, e não valeu a pena, não estava lá ninguém para ver.

19.5.11

LISPECTOR, Clarice. Água viva

Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.
HUXLEY, Aldous. A ilha

Notas sobre o que é que e sobre o que seria razoável fazer a respeito disso
Parte 1
Ninguém precisa ir à parte alguma. Como seria bom que todos soubessem disso! / Se apenas soubesse quem realmente sou, deixaria de proceder como penso que sou. E se parasse de me comportar como penso ser, saberia quem sou. / Se ao menos o Maniqueísta que penso ser permitisse ser o que de fato sou, o ‘sim’ e o ‘não’ viveriam reconciliados na abençoada aceitação da existência de Ser Único. / Em religião, todas as palavras são obscenas. Qualquer pessoa que se mostre eloqüente acerca de Buda, Deus ou Cristo deveria ter a boca lavada com sabão carbólico. / A aspiração de todas as religiões de eternizar somente o ‘sim’ em cada par de opostos é irrealizável porque contraria a natureza das coisas. O Maniqueísta isolado que penso ser, se autocondena a uma repetição infindável de frustrações e está em conflito permanente com os outros Maniqueístas igualmente frustrados em suas aspirações. / Conflitos e frustrações – tema de toda história e de quase toda biografia. ‘Eu lhes mostro o sofrimento’, disse Buda, realisticamente. Porém ele também mostrou o fim do sofrimento – o autoconhecimento, a aceitação total e a abençoada experiência de Ser Único.
Notas sobre o que é que e sobre o que seria razoável fazer a respeito disso
Parte 2
O perfeito autoconhecimento gera o Bom Ser, e os Bons Seres realizam uma melhor espécie de Bem. Mas as coisas bem-feitas não produzem automaticamente o Bom-Ser. Podemos ser virtuosos sem que saibamos quem realmente somos. Os indivíduos apenas bons não são necessariamente Bons Seres; são simples pilares da sociedade. / A maioria desses pilares representa o papel de sansão. Sustentam a sociedade, porém cedo ou tarde o derrubam. Ainda não existiu uma só sociedade que, sendo criado por Bons Seres, fosse constantemente atualizada.
Isso não quer dizer que tal sociedade jamais existirá e que nós sejamos idiotas por estarmos tentando pô-la em prática aqui em Pala.
Notas sobre o que é que e sobre o que seria razoável fazer a respeito disso
Parte 3
O iogue e o estóico – dois egos que pretendem atingir seus objetivos fazendo-se passar por alguém que na realidade não são. Mas não é fingindo ser alguém, mesmo um alguém sábio e superlativamente bom, que deixamos de ser meros Maniqueístas cegos e isolados para nos transformarmos em Bons Seres. O verdadeiro conhecimento de quem realmente somos é que nos faz bons, para sabermos quem realmente somos devemos conhecer nos mínimos detalhes aquilo que pensamos ser. Desse modo, descobrimos o que essa falsa idéia nos obriga a sentir e fazer. Um simples momento de conhecimento claro e completo do que pensamos ser, mas que na realidade não somos, põe um fim momentâneo ao enigma Maniqueísta. / Se renovarmos esses momentos de autoconhecimento do que não-somos, fazendo com que se tornam contínuos, poderemos vir a descobrir subitamente aquilo que realmente somos. (...) / A concentração em pensamentos abstratos e exercícios espirituais equivalem a exclusões sistemáticas no domínio do pensamento. / O Ascetismo e o Hedonismo são exclusões sistemáticas no domínio das sensações, dos sentimentos e das ações. / Mas o Bom Ser conhece sua verdadeira posição em relação a todas as experiências e, desse modo, está em permanente estado de alerta. Está alerta ao que se possa crer, não crer, às coisas agradáveis e às desagradáveis, e essa vigilância não deve cessar, mesmo quando está imerso nos trabalhos e nos sofrimentos. / Essa é a única ioga verdadeira; o único exercício espiritual digno de ser praticado. Quanto mais um homem conhece os propósitos dos indivíduos, mais sabe a respeito de Deus. Adaptando a linguagem de Spinoza, podemos dizer: Quanto mais um homem sabe o seu modo de sentir em relação a cada tipo de experiência, maiores serão as chances de que um dia venha a descobrir Quem Realmente É. / São João estava certo. Num universo abençoadamente mudo, a Palavra se limitava a estar com Deus. Era o próprio Deus. Alguma coisa para ser acreditada. Um símbolo projetado, um nome para ser adorado. Deus = Deus. / A fé é uma coisa muito diferente da crença. / A crença resulta do fato de se levar a sério (sem a menos análise) as palavras proferidas... Palavras de Paulo, de Maomé, de Marx e de Hitler: palavras que o povo levou a sério... Que resultou disso? OP resultado foi a ambivalência sem sentido da historio – o sadismo apresentado como dever, a devoção contrabalanceada pela paranóia, as despersonalizadas irmãs da caridade cuidando das vítimas dos inquisidores e dos cruzados da Igreja à qual pertencem. A fé, ao contrário da crença, nunca pode ser levada muito a sério. Ela é a confiança empiricamente justificada na nossa capacidade de saber quem realmente somos. É ela que nos permite esquecer o crente Maniqueísta que existe no âmago do Bom Ser.
Notas sobre o que é quê e sobre o que seria razoável fazer a respeito disso
Parte 5
O ‘eu’ que penso ser e o ‘eu’ que realmente sou! Em outros termos, o sofrimento e o fim do sofrimento. Cerca de um terço do sofrimento que devo suportar é inteiramente inevitável por ser inerente à própria condição humana. Representa o preço que todos temos que pagar pelo fato de sermos dotados de sensibilidade; embora sedentos por libertação, nos sujeitamos às leis naturais que nos obrigam a continuar caminhando (sem poder retroceder) através de um mundo inteiramente indiferente ao nosso bem-estar. Caminhando em direção à decrepitude e à certeza da morte. Os outros dois terços são ‘confeccionados em casa’ e o universo os considera inteiramente supérfluos.