Escrever é uma camisa de força. Quero dizer, várias. A
primeira camisa de força é a da lógica, com as suas formas de pensamento em
geral, dedução, indução, ilação, associação, hipótese, inferência, isso inclui
uma série de raciocínios que encadeiam os acontecimentos, as coisas, os
elementos da natureza, o ser humano, o acaso, e deve haver coerência e
fundamento; depois vem a camisa de força da sintaxe, essa parte da gramática
que ensina a unir as palavras para criar orações, períodos, parágrafos, em
síntese, o texto em si, regrais estruturais referentes à regência, flexão,
tropos, et cetera, ou seja, uma
compilação danada; depois tem a camisa de força do vocabulário, não vou
envolver Flaubert nisso, mas existe palavra certa, o que não existe é sinônimo.
Por exemplo: a palavra “estulto”. Qual é o sinônimo? Insensato? Parvo? Néscio?
Imbecil? Idiota? Tolo? Zote? Lorpa? Não. Como disse aquele famoso filósofo
egípcio de Alexandria, cada palavra tem a sua própria transcendência, cada
coisa é uma coisa e cada caso é um caso. E há ainda a camisa de força do ritmo,
não me refiro ao fenômeno musical, nem físico, nem fisiológico, mas ao fenômeno
rítmico literário, a cesura, a métrica, a cadência, que não existem apenas na
poesia, mas também na prosa, que, conquanto não tenha hexâmetros, decâmetros ou
hemistíquios, possui a sua própria cadência. E, ao contrário do que se pensa, o
texto ensaístico tem um ritmo mais complexo do que o ficcional. Aliás, eu não
lia mais ficção. Parei com isso na adolescência. Li tanto que quase tive uma
congestão. E tem mais: hoje em dia existe macete tecnológico para corrigir
fotografia, filme, música, tudo, menos textos literários desafinados.
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3.1.14
9.11.11
ROSA, Guimarães. Carta a Günther Lorenz
(...) meu método (de escrever) implica na utilização de cada palavra como se ela tivesse acabado de nascer, para limpá-la das impurezas da linguagem cotidiana e reduzi-la a seu sentido original. Por isto (...), eu incluo em minha diccção certas particularidades dialéticas (sic) de minha região, que (...) ainda têm sua marca original, não estão desgastadas e quase sempre são de uma grande sabedoria lingüística” (p.46).
5.7.11
20.5.11
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela
Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que tivesse sido e não fui.
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela
Com esta história eu vou me sensibilizar, e bem sei que cada dia é um dia roubado da morte. Eu não sou um intelectual, escrevo com o corpo. E o que escrevo é uma névoa úmida. As palavras são sons transfundidos de sombras que se entrecruzam desiguais, estalactites, renda, música transfigurada de órgão. Mal ouso clamar palavras a essa rede vibrante e rica, mórbida e obscura tendo como contratom o baixo grosso da dor. Alegro com brio. Tentarei tirar ouro do carvão. Sei que estou adiando a história e que brinco de bola sem a bola. O fato é um ato? Juro que este livro é feito sem palavras. É uma fotografia muda. Este livro é um silêncio. Este livro é uma pergunta.
18.4.11
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