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19.3.12

CALVINO, Italo. As cidades invisíveis

Sabe-se que o nome dos lugares muda tantas vezes quantas são as suas línguas estrangeiras; e que cada lugar pode ser alcançado de outros lugares, pelas mais variadas estradas e rotas, por quem cavalga guia rema voa.

24.11.11

BEZERRA, Paulo. O laboratório do gênio (posfácio de O duplo)

Literatura é arte feita de discurso, e arte é incompatível com literalidade, logo, o tradutor deve praticar a fidelidade ao espírito da obra, ao clima dos diálogos, deve encontrar o tom (...). Há momentos em que não basta ao tradutor conhecer o significado das palavras da língua de partida; precisa aprender a senti-las, saber captar a afetividade da sua entonação para interpretar seu real sentido e trazê-lo para a língua de chegada em linguagem adequada. Para tanto é mister que fale fluentemente a língua de partida, para poder ouvir sua oralidade e entender o que um escritor faz dela, porque o tradutor não traduz língua, traduz linguagem. E toda linguagem tem sua carga específica de afetividade, modo de ser da subjetividade das criaturas do mundo real convencionadas como personagens.

9.11.11

ROSA, Guimarães. Carta a Harriet de Onís

Deve ter notado que, em meus livros, eu faço, ou procuro fazer isto, permanentemente, constantemente com o português: chocar, “estranhar” o leitor, não deixar que ele repouse na bengala dos lugares-comuns, das expressões domesticadas e acostumadas; obrigá-lo a sentir a frase meio exótica, uma “novidade” nas palavras, na sintaxe. Pode parecer crazy de minha parte, mas quero que o leitor tenha de enfrentar um pouco o texto, como a um animal bravo e vivo. (2 de maio de 1959)

Sei que o absoluto horror ao lugar comum, à frase feita, ao geral e amorfamente usado querem-se como características do Sagarana. A sra terá notado que, no livro todo, raríssimas serão as fórmulas usuais. A meu ver, o texto literário precisa de ter gosto, sabor próprio - como na boa poesia. O leitor deve receber sempre uma pequena sensação de surpresa, isto é, de vida. (11 de fevereiro de 1964)

Não procuro uma linguagem transparente. Ao contrário, o leitor tem de ser chocado, despertado de sua inércia mental, da preguiça e dos hábitos. Tem de tomar consciência viva do escrito, a todo momento. Tem quase de aprender novas maneiras de sentir e de pensar. Não o disciplinado - mas a força elementar, selvagem. Não a clareza - mas a poesia, a obscuridade do mistério, que é o mundo. (4 de novembro de 1964)


ROSA, Guimarães. Carta a Günther Lorenz

(...) meu método (de escrever) implica na utilização de cada palavra como se ela tivesse acabado de nascer, para limpá-la das impurezas da linguagem cotidiana e reduzi-la a seu sentido original. Por isto (...), eu incluo em minha diccção certas particularidades dialéticas (sic) de minha região, que (...) ainda têm sua marca original, não estão desgastadas e quase sempre são de uma grande sabedoria lingüística” (p.46).