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19.3.12

CALVINO, Italo. As cidades invisíveis

É uma cidade igual a um sonho: tudo o que pode ser imaginado pode ser sonhado, mas mesmo o mais inesperado dos sonhos é um quebra-cabeça que esconde um desejo, ou então o seu oposto, um medo. As cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que as suas regras sejam absurdas, as suas perspectivas enganosas, e que todas as coisas escondam uma outra coisa.

7.2.12

SARAMAGO, José. Claraboia

Vivia dentro de si mesma, como se estivesse sonhando um sonho sem princípio nem fim, um sonho sem assunto de que não queria acordar, um sonho todo feito de nuvens que passavam silenciosas encobrindo um céu de que já se esquecera.

8.9.11

LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho

A curiosidade de Emília vaio interromper aquele êxtase.
- Mas quem é que fabrica esta fazenda, Dona Aranha? - perguntou ela, apalpando o tecido sem que Narizinho visse.
- Este tecido é feito pela fada Miragem - respondeu a costureira.
- E com que tesoura a senhora o corta?
- Com a tesoura da Imaginação.
- E com que agulha o cose?
- Com a agulha da Fantasia.
- E com que linha?
- Com a linha do Sonho.

5.7.11

BORGES, Jorge Luis. O fazedor

ARTE POÉTICA

Mirar o rio, que é de tempo e água,
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que passam os rostos como água.

E sentir que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar, sentir que a morte,
Que a nossa carne teme, é essa morte
De cada noite, que se chama sonho.

E ver no dia ou ver no ano um símbolo
Desses dias do homem, de seus anos,
E converter o ultraje desses anos
Em uma música, um rumor e um símbolo.

E ver na morte o sonho, e ver no ocaso
Um triste ouro, e assim é a poesia,
Que é imortal e pobre. A poesia
Retorna como a aurora e o ocaso.

Às vezes, pelas tardes, uma face
Nos observa do fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nossa própria face.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao avistar sua Ítaca
Humilde e verde. A arte é essa Ítaca
De um eterno verdor, não de prodígios.

Também é como o rio interminável
Que passa e fica e que é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.
BORGES, Jorge Luis. O fazedor

Ninguém houve nele; atrás de seu rosto (que mesmo através das más pinturas da época não se assemelha a nenhum outro) e de suas palavras, que eram copiosas, fantásticas, agitadas, não havia mais que um pouco de frio, um sonho não sonhado por ninguém.

18.4.11

YOURCENAR, Marguerite. Memórias de Adriano

Falamos muito dos sonhos da juventude. Esquecemos, talvez demasiado, os cálculos. Cálculos são também sonhos, e não menos loucos do que estes.
YOURCENAR, Marguerite. Memórias de Adriano

O que nos tranquiliza no sono é a certeza de que dele retornamos, e retornamos os mesmos, já que uma estranha interdição nos impede de trazer conosco o resíduo exato dos nossos sonhos.
YOURCENAR, Marguerite. Memórias de Adriano

Acreditei, e nos meus bons momentos ainda acredito, que seria possível partilhar da existência de todos os homens e que essa simpatia seria uma das formas irrevogáveis da imortalidade. Momentos houve em que essa compreensão tentou ultrapassar o humano, indo do nadador à própria vaga. Mas ali nada de positivo me foi explicado porque entrara no domínio das metamorfoses do sonho.

31.7.10

BORGES, Jorge Luis. Ficções

Compreendeu que o empenho de modelar a matéria incoerente e vertiginosa de que os sonhos são feitos é o mais árduo que um varão pode empreender, embora penetre todos os enigmas da ordem superior e da inferior: muito mais árduo que tecer uma corda de areia ou que amoldar o vento sem rosto.
BORGES, Jorge Luis. Ficções

No sonho do homem que sonhava, o sonhado despertou.

11.7.10

BONASSI, Fernando. Prova contrária

A diferença entre a vida e o sonho é o lado no qual se acorda.