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16.5.12

LOBATO, Monteiro. Memórias da Emília

A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre.
– E depois que morre? – perguntou o Visconde.
– Depois que morre vira hipótese. É ou não é?
O Visconde teve de concordar que era. 
LOBATO, Monteiro. Memórias da Emília

A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais. É, portanto, um pisca-pisca. 

21.3.12

WOOLF, Virginia. O quarto de Jacob

Não são catástrofes, assassinatos, mortes e enfermidades que nos envelhecem e matam; é o modo como as pessoas olham e riem, e sobem correndo os degraus dos ônibus.

7.2.12

SARAMAGO, José. Claraboia

Aprendi a ver mais longe que a sola destes sapatos, aprendi que, por detrás desta vida desgraçado que os homens levam, há um grande ideal, uma grande esperança. Aprendi que a vida de cada um de nós deve ser orientada por essa esperança e por esse ideal. E que se há gente que não sente assim, é porque morreu antes de nascer.

20.9.11

REBELO, Marques. A estrela sobe

O céu estava de um azul muito escuro, estrelado. Nunca lhe pareceu tão imenso, tão infinito. Que haveria para além das estrelas? Um arrepio percorreu-lhe o corpo. O coração bateu-lhe com mais intensidade – tinha medo da morte, do fatal aniquilamento, da cova fria. E as estrelas brilhavam. E a Via Láctea era um caminho branco no céu. Pelo branco caminho é que as almas trilhavam. Pelo branco caminho, um dia, sua alma trilharia... O medo voltou. Mas voltou sem sobressaltá-la. Nem era mais medo, mas uma comoção mansa, serena, duma serenidade de canto religioso, de alma que encontra o infinito. Morrer? Sim, morreria. Ficaria dura, muda, fria, imóvel, para sempre fria e imóvel. Os seus pés, as suas mãos, os seus olhos, o seu corpo, um dia, desapareceriam consumidos pela terra inexorável. Um dia, ninguém mais se lembraria dela. Ninguém!... Sentiu qualquer coisa de terrível e injusto – ninguém!... A vida dos homens passa como uma sombra.

8.9.11

LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho

- O mundo está perdido!... Quando eu havia de pensar que o Visconde ia ter este fim? Não valemos nada nesta vida. Quando chega a hora de virar, pode ser rei, pode ser visconde, a gente vira mesmo - e ainda é bom quando vira pilão...

20.5.11

LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres

Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida.
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela

Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que tivesse sido e não fui.