A vida é dialógica por natureza. Viver significa participar do diálogo: interrogar, ouvir, responder, concordar, etc. Nesse diálogo o homem participa inteiro e com toda a vida: com os olhos, os lábios, as mãos, a alma, o espírito, todo o corpo, os atos. Aplica-se totalmente na palavra, e essa palavra entra no tecido dialógico da vida humana, no simpósio universal.
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20.5.11
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela
Com esta história eu vou me sensibilizar, e bem sei que cada dia é um dia roubado da morte. Eu não sou um intelectual, escrevo com o corpo. E o que escrevo é uma névoa úmida. As palavras são sons transfundidos de sombras que se entrecruzam desiguais, estalactites, renda, música transfigurada de órgão. Mal ouso clamar palavras a essa rede vibrante e rica, mórbida e obscura tendo como contratom o baixo grosso da dor. Alegro com brio. Tentarei tirar ouro do carvão. Sei que estou adiando a história e que brinco de bola sem a bola. O fato é um ato? Juro que este livro é feito sem palavras. É uma fotografia muda. Este livro é um silêncio. Este livro é uma pergunta.
19.5.11
WILDE, Oscar. De profundis
A cegueira pode ser levada tão longe que se torna grotesca, e uma natureza pouco imaginativa, se não se fizer alguma coisa para a despertar, ficará petrificada numa absoluta insensibilidade, de tal modo que, enquanto o corpo pode comer, e beber, e ter seus prazeres, a alma, de que é casa, pode, como a alma de Branca d´Oria em Dante, estar absolutamente morta.
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