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10.7.12


RICARDO, Cassiano. "Gonçalves Dias e o indianismo", A literatura no Brasil: Era romântica


Ora, todos sabemos que a obra de arte, principalmente de poesia, pode ser encarada sob três aspectos, pelo menos, na pesquisa dos elementos que entraram em sua composição: a) o intencional, aquilo que constitui o “intensity of the artistic process”; b) o inintencional, que compreende o involuntário (elementos poéticos fortuitos); c) o preterintencional, resultado além do previsto (efeitos poéticos em que o autor não chegou a pensar no ato de escrever o seu poema).


(...)


Este critério que consiste em examinar o que há de intencional, de inintencional e de preterintencional na obra poética, como aqui se propõe, nos ajuda mesma a classificá-la segundo as tendências de cada época.


(...)


Não se quer dizer com isto que só interesse à poesia o “intencional”; o que importa, já o disse De Sanctis, citado por Croce, não é o que o poeta se propõe a fazer, mas apenas o que ele fez, mesmo inconscientemente, e até em contradição com o fim que teve em vista.

2.6.12


AUSTEN, Jane. Persuasion

Her pleasure in the walk must arise from the exercise and the day, from the view of the last smiles of the year upon the tawny leaves and withered hedges, and from repeating to herself some few of the thousand poetical descriptions extant of autumn, that season of peculiar and inexhaustible influence on the mind of taste and tenderness, that season which was drawn from every poet, worthy of being read, some attempt at description, or some lines of feeling.

24.4.12


PAZ, Octavio. Os filhos do barro

Ler um texto não-poético é compreendê-lo, apropriar-se de seu sentido; ler um texto poético é ressucitá-lo, re-produzi-lo.
PAZ, Octavio. Os filhos do barro

O poema não é apenas uma realidade verbal, é também um ato. O poeta diz e, ao dizer, faz. Este fazer é sobretudo um fazer-se a si mesmo: a poesia não é só autoconhecimento, mas também autocriação. O leitor, por sua vez, repete a experiência da autocriação do poeta e assim a poesia encarna-se na história.

7.2.12

SARAMAGO, José. Claraboia

A poesia é, talvez, como uma fonte que corre, é como a água que nasce da montanha, simples e natural, gratuita em si mesma. A sede está nos homens, a necessidade está nos homens, e é só porque elas existem que a água deixa de ser desinteressada. Mas será assim a poesia? Nenhum poeta, como nenhum homem, seja ele quem for, é simples e natural. E Pessoa menos que qualquer outro. Quem tiver sede de humanidade não a irá matar nos versos de Fernando Pessoa: será como se bebesse água salgada.

9.11.11

ROSA, Guimarães. Carta a Harriet de Onís

Deve ter notado que, em meus livros, eu faço, ou procuro fazer isto, permanentemente, constantemente com o português: chocar, “estranhar” o leitor, não deixar que ele repouse na bengala dos lugares-comuns, das expressões domesticadas e acostumadas; obrigá-lo a sentir a frase meio exótica, uma “novidade” nas palavras, na sintaxe. Pode parecer crazy de minha parte, mas quero que o leitor tenha de enfrentar um pouco o texto, como a um animal bravo e vivo. (2 de maio de 1959)

Sei que o absoluto horror ao lugar comum, à frase feita, ao geral e amorfamente usado querem-se como características do Sagarana. A sra terá notado que, no livro todo, raríssimas serão as fórmulas usuais. A meu ver, o texto literário precisa de ter gosto, sabor próprio - como na boa poesia. O leitor deve receber sempre uma pequena sensação de surpresa, isto é, de vida. (11 de fevereiro de 1964)

Não procuro uma linguagem transparente. Ao contrário, o leitor tem de ser chocado, despertado de sua inércia mental, da preguiça e dos hábitos. Tem de tomar consciência viva do escrito, a todo momento. Tem quase de aprender novas maneiras de sentir e de pensar. Não o disciplinado - mas a força elementar, selvagem. Não a clareza - mas a poesia, a obscuridade do mistério, que é o mundo. (4 de novembro de 1964)


5.7.11

BORGES, Jorge Luis. O fazedor

ARTE POÉTICA

Mirar o rio, que é de tempo e água,
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que passam os rostos como água.

E sentir que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar, sentir que a morte,
Que a nossa carne teme, é essa morte
De cada noite, que se chama sonho.

E ver no dia ou ver no ano um símbolo
Desses dias do homem, de seus anos,
E converter o ultraje desses anos
Em uma música, um rumor e um símbolo.

E ver na morte o sonho, e ver no ocaso
Um triste ouro, e assim é a poesia,
Que é imortal e pobre. A poesia
Retorna como a aurora e o ocaso.

Às vezes, pelas tardes, uma face
Nos observa do fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nossa própria face.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao avistar sua Ítaca
Humilde e verde. A arte é essa Ítaca
De um eterno verdor, não de prodígios.

Também é como o rio interminável
Que passa e fica e que é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.

20.5.11

SARAMAGO, José. A jangada de pedra

Quando os homens forem todos poetas param de escrever versos.